quarta-feira, março 29, 2006

O Meu Amor Existe




















O meu amor tem lábios de silêncio
E mãos de bailarina
E voa como o vento
E abraça-me onde a solidão termina

O meu amor tem trinta mil cavalos
A galopar no peito
E um sorriso só dela
Que nasce quando a seu lado eu me deito

O meu amor ensinou-me a chegar
Sedento de ternura
Sarou as minhas feridas
E pôs-me a salvo para além da loucura.

O meu amor ensinou-me a partir
Nalguma noite triste
Mas antes, ensinou-me
A não esquecer que o meu amor existe.


Jorge Palma

Picado pelas Abelhas



Ainda mal o sol nascera
Já a multidão descera à praça principal
Era o grande ajuste de contas
E as pessoas estavam prontas a acabar de vez com o mal
Tinham sido anos a fio
A lutar com a fome e com o frio
Ao som de promessas de pão e de conforto
Agora o povo queria o poder
Já não tinha mais nada a perder
Quando um homem tem vida de cão
Mais lhe vale ser morto

O sangue correu pelo chão
Em nome da revolução e o povo acabou por vencer
Celebrou-se a liberdade
A igualdade e a fraternidade que acabavam de nascer
Mas ao chegar a vez de cada um
Trabalhar para o bem comum
Aí começaram os dissabores
E em vez de ficarem unidos
Dividiram-se em mil partidos
Lá no fundo, todos queriam ser
Ditadores

E as crianças pareciam feias
No meio de tanta gente velha
Eu ouvi alguém gritar:
"Meu Deus, estou todo picado pelas abelhas!"

Picado pelas abelhas, picado pelas abelhas....

E agora um traficante com ar obsceno
Vai vendendo o seu veneno a quem trouxer o dinheiro na mão
E um consumidor diz baixinho que tem falta de carinho
Ao ser arrastado para a prisão
E um vagabundo cheio de aguardente
Diz que o desejo há-de estar presente
Até ao fim da cerimónia
Enquanto um poeta com ar cansado
Diz: "Antes só que mal acompanhado!"
E arranca para mais
Uma noite de insónia

E as crianças parecem velhas
No meio de tanta gente feia
Eu continuo a ouvir gritar:
"Meu Deus, estou todo picado pelas abelhas!"
Picado pelas abelhas, picado pelas abelhas....

Jorge Palma

Grande Jorge!

quarta-feira, março 22, 2006

Incazzato


Herbert, esse grande maluco que vivia ao sabor dos acontecimentos sem fazer grandes planos para o futuro que era tão incerto como a confusão dentro da sua cabeça, andava incazzato como diria no seu melhor latim qualquer italiano que se sentisse de forma semelhante. Estava naqueles dias em que pensava em todos os assuntos que pendiam na sua cabeça sem resolução à vista (pelo menos a breve termo) : o sempre presente desejo de sair de casa dos pais cuja realização parecia cada vez mais longínqua e a sua impotência para o realizar; o seu iminente ingresso nas fileiras do mundo real que continuava a ser uma fonte de incerteza e algum medo à mistura; a sua necessidade di stare con lei e superar o clima de indefinição das suas recentes e presentes relações que eram atribuladas como o resto da sua vida; a precária situação financeira presente. A juntar a tudo isto, chovia lá fora e o céu apresentava-se num tom cinzento escuro carregado como quem diz: "nem sequer terás hipótese de tirar o cavalinho da chuva hoje". Tudo bem mexido e sem juntar ovos, hoje era daqueles dias, pensava Herbert com uma expressão quase tão sisuda como o tempo lá fora, em que apetecia passar um atestado de "vafancullo" a todo o mundo, do estilo: " - bom dia Herbert!", ao que este responderia com um categórico " - pó caralho pá!". Estava definitivamente chateado o nosso Herbert e, mais estranho, nem sequer tinha uma boa razão para isso. Nem tão pouco parecia interessado em encontrá-lo, o motivo, estava incazzato e pronto. Amanhã seria outro dia...

quinta-feira, março 02, 2006

Tempo dos Assassinos

"Vivemos no tempo dos assassinos..." Mais uma vez aproprio-me de uma expressão do mano Jorge, desta vez para expressar a minha profunda tristeza e revolta em relação à merda de sociedade em que vivemos. Amanhã vou a uma entrevista para o meu estágio de final de curso e o "protocolo" manda que eu esteja "bonito"... paneleiros! Eu sou bonito assim como estou agora! Até pode ser que amanhã me apeteça mudar de visual e cortar o cabelo mas se assim for será de minha livre e espontânea vontade e não porque a cambada que comanda pensa isto ou aquilo! Hoje em dia (esta expressão dá-me nervos, parece que estou a fazer uma daquelas composições da tanga de francês do secundário "de nos jours...") o mais importante é parecer importante, a aparência é sobrevalorizada em relação à competência and so on and so on... fico fodido!
É o tempo dos assassinos, assassinos de ideias, assassinos da diferença, assassinos do livre pensamento e da livre expressão, cambada de clones todos iguais, engomados do caralho todos de fatinho e gravata e frases politicamente correctas... monglóides adaptados e inseguros ao ponto de imporem as suas ideias de merda a tutti quanti! Inseguros mas eles é que mandam e no meio disto tudo, inseguro sou eu!!! Merda de país de beatas de igreja em que eu vivo, que vão à missa ao domingo e falam de Cristo e de Amor para depois serem as primeiras a apontar o dedo ao próximo, a criticar a sua diferença e praticando as maiores barbaridades sociais. Fico fodido!!!